RS: Indígenas Laklãnõ-Xokleng denunciam perseguição da Guarda Municipal de Canoas em entrevista ao AND

A Nova Democracia - https://anovademocracia.com.br - 15/12/2025
Os Correspondentes Locais do AND em Porto Alegre (RS) entrevistaram a Cacique Antonia Konheco Paté, liderança indigena Laklãnõ-Xokleng, em luta pela retomada de seu território em Canoas, cidade vizinha a Porto Alegre.

O povo Laklãnõ-Xokleng, quase dizimado pelo velho Estado brasileiro por ousar lutar contra as incursões em seu território, permaneceu por décadas sobrevivendo em segredo. Hoje, frente a agudização da luta pela terra em nosso país, e atacados mesmo em sua pequena área em Santa Catarina, para onde foram empurrados após décadas de extermínio, reivindicam o caminho combativo da retomada de terras como única via para combater a guerra imposta pelo latifúndio contra os povos indígenas. Em seguida, publicamos uma parte da entrevista:

Correspondente Local do AND (CL-AND): A companheira poderia por favor nos apresentar um pouco da história de seu povo?

Antônia: Vou me apresentar aqui, sou Antônia Konheco Paté, trago o nome da minha tataravó, Konheco, também uma índia, que também veio do mato, e eu trago comigo o nome dessa guerreira. A gente sempre ouviu histórias dos nossos avós, contando do meu pai, da minha mãe, dos nossos anciãos, contando a história do Rio Grande do Sul. Então, o Rio Grande do Sul é a terra do Xokleng.

Mas no passado a gente foi massacrado, quase acabaram com nós, quase que fomos extintos. Então, para a nossa sobrevivência, a gente foi pra Santa Catarina, onde a gente hoje tem a terra indígena Laklãnõ-Xokleng, que fica no município de José Boiteux. Mas a gente nunca esqueceu da história e da casa nossa, que é o Rio Grande do Sul, nunca esqueceu disso, porque nós morávamos aqui perto do rio, aqui na Serra do Rio Grande do Sul, é onde nós morávamos. E a gente sempre teve saudade da nossa terra, e voltamos pra cá. E hoje estou aqui, né, batalhando pelo direito meu, como Laklãnõ Xokleng, porque é meu território. Aqui nós temos nossos memoriais também, histórias nossas, a cidade de Canoas, é uma cidade que tem uma memória nossa também.

E para mim hoje aqui - para quem não conhece a nossa história de Laklãnõ Xokleng -, eu tô voltando pra casa, de onde eu nunca deveria ter saído, mas para nossa sobrevivência nós tivemos que ficar uns tempos escondidos, agora a gente tá voltando pra casa, não esquecemos da nossa história, sempre levamos conosco a nossa história.

Estamos aqui e nós pedimos para que as pessoas que ouvirem isso, elas venham respeitar também o nosso direito. O nosso direito, porque nós estamos vindo, voltando pra casa, porque os nossos ancestrais que estão nos chamando para que nós volte pra casa. Nós queremos ficar aqui no Rio Grande do Sul, para nós aqui, eu me sinto em casa.

CL-AND: Como está sendo a 'recepção' do Estado pela chegada de vocês, em relação a repressão, houve alguma ameaça ou ação tomada pelo Estado?

Antônia: Ontem fez um mês que eu estou no Rio Grande do Sul e faz uns 15 dias que nós entramos aqui nessa retomada. E quando a gente estava aqui, foi na segunda-feira, né? Aí o pessoal da Guarda Municipal chegou aqui, querendo chutar nós, pedindo que a gente saísse, que aqui não era para nós ficar. Gritando, falando que eles iam sair daqui só depois que nós saísse.

Daí eu não sabia, né, que aqui do lado, tem um CTG. E o pessoal aqui do CTG que denunciaram nós, falando que nós tínhamos invadido o CTG, arrombado a porta ali. Que nós estávamos jogando lixo, sujando aqui o pátio... quando a gente chegou aqui, era um mato e nós nem fomos até lá no CTG. Eu olhei dali de longe, né, porque aqui como era uma terra da União, né, era do Exército... então ali tinha uma placa do Exército. E eu olhei de longe lá, essa placa, agora eles tiraram a placa. Só está a placa ali do CTG mesmo.

[A Guarda Municipal] Eles chegaram aqui chutando a gente. Mas quando a gente chegou aqui, estava sujo... era mato; era lixo jogado por ali tudo, nós que estamos limpando. Então, eu disse: não, não vou sair daqui. [...] E fiquemos aqui, e eles ficaram o dia inteiro aqui pedindo para que a gente saísse...não saio!

Aqui agora o município de Canoas não quer nos ajudar, né? Mas se bem que nós temos o direito também, porque nós somos cidadãos brasileiros também, e se nós viemos morar para cá, nós também fazemos parte do município. [...]Nós vamos ficar aqui! Porque aqui, tem a história dos nossos parentes, do povo Laklãnõ-Xokleng... então nós vamos ficar aqui!

CL-AND: E em relação aos moradores daqui da região, está havendo muita hostilização? Como está sendo para vocês?

Antônia: No começo, quando a gente chegou aqui, teve algumas pessoas que passavam por aqui só pra estar falando para nós [sair], né? Mas a gente não falou nada, ficou quieto, não respondeu pra eles. Porque a gente sabe o nosso direito...mas agora eles já estão vendo que a gente não veio aqui pra invadir nada, a gente só veio brigar pelo nosso direito.

CL-AND: Está havendo alguma solidariedade, ou apoio na retomada de vocês?

Agora veio a FUNAI, que nos deu cesta básica pra nós, mas também só cesta básica... mais nada... estamos esperando ainda mais da FUNAI também... e o Cepi (Conselho Estadual do Povo indígena), que chegou aqui em nós para ver, e conversar com nós... só isso que apareceram, o resto que a gente tem aqui a gente trouxe de casa. A FUNAI mesmo falou pra mim... porque nós sempre trabalhamos com artesanato. Então, a FUNAI falou pra mim que aqui tinha uma... tinha uma banca [de artesanato] dos Xokleng. Mas nunca um Xokleng esteve ali. E daí, agora que a gente veio... e eles [prefeitura] tiraram essa banca nossa.

CL-AND: Nós estamos vendo uma série de ataques contra o povo em luta pela terra, contra os povos indígenas, o que a Sra. pensa sobre essa questão, em relação a retomada de vocês, vocês acham que mesmo com essa perseguição a retomada é o caminho que vocês, e todos os outros povos indígenas devem seguir?

Antônia: Nós, povos Laklãnõ-Xokleng, nós também temos... Como eu falo, nós somos todos povos indígenas. Nós temos culturas diferentes e vivências diferentes, né? Então... uma das nossas culturas de nós, Laklãnõ-Xokleng, que nós levamos conosco, é a luta por território.

É uma cultura nossa que nós leva conosco... a gente aprende desde criança, desde pequeno, né? Pra lá na frente, quando alguém parar [de lutar], nós continuar caminhando... por isso que nós estamos voltando pra casa.

CL-AND: A última pergunta que eu gostaria de fazer é... a gente sempre acompanha as lutas dos povos indígenas aqui na região, nós vemos isso como uma das questões principais do nosso país hoje. E a gente vê... uns episódios de atrito entre os povos indígenas, por exemplo, em relação aqui no sul, entre os Kaingang e os Guarani, e nós gostaríamos de perguntar pra Sra. o que você diria para essas pessoas, e não só para os indígenas, em relação a luta, e a unidade de luta.

Antônia: Eu sempre falo assim, que a luta é uma só. E mesmo eu sendo Xokleng, eles sendo Kaingang, ou Guarani, ou Pataxó, ou outro indígena, nós somos discriminados do mesmo jeito.

Todos são discriminados. Quando um me discrimina, eles dizem 'os indígenas', então, atinge eu também... quando nós Xokleng ganhar nossa terra, todos os povos indígenas vão ter o seu direito também. Então, o que quer dizer isso? Quer dizer que somos discriminados do mesmo jeito. E nós temos que lutar junto, batalhar junto.

Então, eu sempre batalhei junto com todos. Eu batalho com todos. Quer dizer, seja Xokleng, seja Kaingang, seja Guarani... no sul aqui, eu conheço todos os povos que tem no sul. Que a gente batalha junto. Por isso, eu digo que a luta é uma só.

Nós batalhamos juntos, temos que deixar as encrencas pra lá e vamos batalhar juntos. As diferenças pra lá.

Por quê? Porque isso não é nosso, isso não é cultura dos indígenas. Os indígenas, eles... eles bebem juntos, eles comem juntos, eles choram juntos, eles caminham juntos, eles criam seus filhos juntos. Isso não é nosso. Querer se desunir, querer ter o que é dele separado do meu, isso não é nosso, não é do indígena. Então, pra eles, que nós temos, que é uma cultura nossa também.

Que nós estamos perdendo. Muitos indígenas estão perdendo. Mas, nós não podemos perder isso. Porque nós temos que estar juntos. Eu batalho pelos povos indígenas... pelo direito dos povos indígenas... sempre eu falo isso.

A retomada enfrenta diversas dificuldades estruturais, como a falta de lona para construir barracas e se protegerem das chuvas, além da falta de acesso decente à água e a Saúde popular. Os indígenas do povo Laklãnõ-Xokleng disponibilizaram para os companheiros que quiserem contribuir em sua retomada a chave pix: 03616760933 (CPF).

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