"O Renascimento da Memória" conta luta do povo Puyanawa para recuperar vestígios ancestrais apagados pelo impacto da BR-364

OVARADOURO - https://ovaradouro.com.br - 12/01/2026
Minidocumentário é resultado da conclusão do projeto "Guardiões sob Ameaças" executado com recursos do Fundo Casa Socioambiental, por meio da chamada "Comunicação Comunitária e Direitos Humanos", com o objetivo de fortalecer a voz dos jovens indígenas.


"Ao falar da nossa história falo de mim, do meu pai, do meu avô, do meu tio; falo da minha tia e falo doS nossos ancestrais, que é onde nos inspiramos,quando a gente faz a história ser infinita. Tudo aquilo que é infinito é aquilo que a gente nunca deixa para trás. A nossa história é infinita porque a gente sempre se conecta com eles e por isso que a gente, um dia, vai ser infinito também".

O registro da fala de Divake Puyanawa, cacique de seu povo, pode ser conferido no minidocumentário "O Renascimento da Memória", divulgado pelo Varadouro como conclusão do projeto "Guardiões sob Ameaças", executado com recursos do Fundo Casa Socioambiental, por meio da chamada "Comunicação Comunitária e Direitos Humanos", em 2025.

A iniciativa reafirma nosso compromisso histórico de produzir jornalismo integralmente dentro da Amazônia, em parceria direta com as populações da floresta. O projeto utilizou a comunicação como um instrumento estratégico de enfrentamento às mudanças climáticas e de fortalecimento das instituições e coletivos locais.

Neste fiilme, os Puyanawa falam sobre a recuperação de suas ancestralidades e demonstram preocupação com o futuro diante de um possível prolongamento da BR-364 até a fronteira com o Peru, visando a ligação com o oceano Pacífico, uma vez que já vivenciaram as consequências negativas de apagamento da memória do seu povo sobre seus territórios e modos de vida.

O resultado deste trabalho conjunto com o Coletivo Tetepawa - formado por mais de 20 jovens de 13 diferentes povos - é a publicação de três documentários produzidos por comunicadores indígenas.

Além da produção audiovisual, o projeto promoveu oficinas de capacitação em áreas como redes sociais, fotografia e vídeo, realizadas em Cruzeiro do Sul, para aperfeiçoar o talento dos jovens comunicadores e estreitar os laços entre o jornalismo independente e os povos da floresta. A edição e a pós-produção dos filmes ficou a cargo da equipe do Varadouro.

O objetivo foi retratar como os eventos climáticos extremos, como as grandes enchentes e secas severas, além de grandes obras "desenvolvimentistas", impactam o modo de vida tradicional, gerando insegurança alimentar e ameaçando a ancestralidade.

Samuel Arara, jovem ativista, e liderança do Coletivo Tetepawa de Comunicação, destaca que a união entre o coletivo e o jornal é um marco para dar visibilidade às narrativas ancestrais.

"Os documentários que produzimos nascem do próprio olhar enquanto comunicadores indígenas, a partir de uma parceria construída com o Jornal Varadouro, baseada no diálogo, no respeito e no trabalho colaborativo com a liderança desses territórios. E trata de um processo também que nós não somos apenas personagens, mas sujeitos dessa narrativa. Nós contamos as histórias de quem conhece esses acontecimentos", afirma Samuel Arara, que também foi bolsista do projeto.

"Esse trabalho em conjunto com o Coletivo Tetepawa vem a consolidar a missão do Jornal Varadouro de produzir uma comunicação de dentro para dentro. Nossa missão de fazer uma comunicação em parceria com as nossas comunidades e povos tradicionais. E o apoio do Fundo Casa Socioambiental fez toda a diferença", afirma Fábio Pontes, editor executivo do Varadouro.

Além dos documentários, o projeto promoveu, em dezembro de 2024, uma oficina de comunicação para quase 20 jovens comunicadores indígenas em uma escola da Terra Indígena Campinas/Katukina, em Cruzeiro do Sul. Foram três dias de formação com ulas sobre mídias digitais, comunicação/linguagem, captação e edição de vídeos.

Para esta etapa, o projeto também contou com o suporte e a parceria doInstituto Fronteiras.



A Voz de quem protege a floresta

O primeiro documentário da trilogia, intitulado "O Renascimento da Memória", mergulha na trajetória de resiliência do povo Puyanawa. Contada por lideranças, o filme mostra a luta das novas gerações para manter sua cultura viva após décadas de silenciamento e massacres decorrentes do contato e da escravidão.

A obra destaca momentos marcantes como o reencontro de quatro mulheres Puyanawa com a Maloca Sagrada em 2012, após mais de um século de interrupção física desse vínculo espiritual. O documentário também alerta para ameaças contemporâneas como o anúncio de que a BR-364, que chega a Mâncio Lima, onde está localizada a Terra Indígena Puyanawa, que poderá ser prolongada até a fronteira com o Peru, contribuindo para a ligação do Juruá à cidade peruana de Pucallpa.

Através da voz de lideranças e jovens, "O Renascimento da Memória" mostra que a luta atual não é apenas pelo passado, mas para garantir que as futuras gerações possam conhecer sua terra e sua história.

"É um território que está num processo de ampliação e que também vem sofrendo uma ameaça, riscos, principalmente com a questão da BR, que passa bem próximo e já se observa que o desmatamento só vem aumentando nessa região. Materializar esse registro para que alcance outras pessoas que são tomadoras de decisão é um dos objetivos da nossa comunicação indígena", explica Samuel Arara.


Ficha Técnica: O Renascimento da Memória

Filmagem e Direção: Caroline Lima da Costa Puyanawa
Filmagem: Samuel Arara
Produção Executiva: Veriana Ribeiro
Montagem, Trilha, Edição de Vídeo e Finalização: Régis Fonseca
Pós-produção, Checagem e Edição Executiva: Steffanie Schmidt
Editor Executivo (O Varadouro): Fábio Pontes

https://ovaradouro.com.br/comunicacao-e-resistencia/
PIB:Acre

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