O território Pataxó na Terra Indígena (TI) Comexatibá, no município de Prado, extremo sul da Bahia, tornou-se palco de uma operação de guerra movida por pistoleiros na manhã de 24 de fevereiro. Relatos afirmam que foram utilizadas motos, carros e até helicópteros. Latifundiários e bandos de pistoleiros cercaram as estradas de acesso ao distrito de Corumbau, disparando contra civis e sequestrando uma família indígena que se encontrava em uma área de retomada.
A ofensiva terrorista do latifúndio, orquestrada por interesses de disputa de terras sobre as quais busca manter o domínio, acabou por atingir duas turistas gaúchas, de 55 e 57 anos, que se dirigiam às praias da região. Elas foram atingidas por disparos enquanto tentavam desviar de um bloqueio. Imediatamente, o monopólio de imprensa e perfis de plataformas digitais ligados ao latifúndio iniciaram uma campanha difamatória, tentando atribuir a autoria dos disparos aos indígenas para criminalizar sua justa luta.
O Coletivo de Lideranças Indígenas da TI Comexatibá emitiu uma Carta Aberta repudiando veementemente essas versões. As lideranças afirmam de forma inequívoca que os disparos partiram dos pistoleiros a serviço dos latifundiários. "Queremos afirmar de forma clara e inequívoca que os disparos que atingiram as turistas não foram efetuados por indígenas do movimento pela Terra Indígena Comexatibá. Essa versão amplamente compartilhada em perfis de redes sociais contraria a realidade dos fatos e as informações que nossos próprios membros nos forneceram. O que vem ocorrendo é uma escalada de ações de grupos armados e organizados por interesses privados - sobretudo fazendeiros e suas redes de comunicação - que buscam criminalizar nosso movimento e confundir a opinião pública", denunciam os indígenas, que exigem a apuração dos fatos.
Enquanto os indígenas lutam pela sobrevivência, as forças de repressão detiveram 12 pessoas, incluindo lideranças indígenas como o Cacique Mandi, sob a acusação de envolvimento no ataque contra as turistas. Essa tática de inverter o papel de vítima e agressor é uma ferramenta histórica do velho Estado e do latifúndio para sufocar a resistência das massas, protegendo a propriedade latifundiária e criminalizando a luta combativa.
Embora o judiciário e a Secretaria de Segurança Pública da Bahia tentem sustentar a versão de que os indígenas realizaram o bloqueio, as lideranças denunciam a cooptação de indígenas de aldeias vizinhas, como TI Águas Belas e Tawá, usados por grandes proprietários rurais para promover conflitos internos e dividir os povos. O uso de "rostos pintados" nos ataques, citado por vítimas, é apontado pelas lideranças como uma encenação cínica de pistoleiros e indígenas cooptados para forjar culpa ao movimento legítimo de retomada.
A TI Comexatibá, que compreende cerca de 28 mil hectares, foi declarada de posse permanente do povo Pataxó pelo Ministério da Justiça em novembro de 2025, por meio da Portaria no 1.073. Entretanto, a leniência do governo oportunista em concluir a demarcação física e a desintrusão de invasores garante a impunidade. Essa paralisia do velho Estado é o que permite que o latifúndio continue operando com seus grupos paramilitares, onde a lei é ditada por quem está mais armado.
O histórico de violência na região é extenso. Em abril de 2025, o indígena João Celestino Lima Filho foi assassinado por homens armados durante a retomada da fazenda Jarapa Grande. Em 2022, o adolescente Gustavo Pataxó, de apenas 14 anos, foi executado com um tiro durante um ataque a outra área retomada. Casas incendiadas, ameaças de morte e o impedimento de crianças frequentarem a escola são o cotidiano de um povo que se recusa a abandonar seu território tradicional.
Paramilitares sob proteção do velho Estado
O sul da Bahia é o berço do movimento "Invasão Zero", um agrupamento de latifundiários fascistas investigado por funcionar como uma verdadeira milícia rural. Este grupo está ligado ao assassinato de Maria de Fátima Muniz, a Nega Pataxó, ocorrido em janeiro de 2024. Denúncias evidenciam que a atuação desses paramilitares conta com a conivência, e muitas vezes a participação ativa, de agentes das forças de repressão, que atuam como seguranças privados de fazendeiros enquanto recebem soldo público. O mesmo grupo chegou a ser repelido por camponeses, organizados pela Liga dos Camponeses Pobres (LCP), quando tentou fracassadamente expulsar as famílias de posseiros das terras da antiga Usina Frei Caneca, em Barro Branco, Jaqueira (PE). O presidente estadual desse grupelho fascista foi alvejado por disparo de arma de fogo durante o ataque que ele mesmo promovia.
Relatos das lideranças indicam que, em retomadas recentes como a da Fazenda Barra do Cahy, as forças de repressão agiram com truculência, realizando expulsões sem mandado judicial. Esse conluio entre o braço armado do velho Estado e o latifúndio evidencia que, independentemente da sigla partidária no governo, a estrutura semifeudal de propriedade da terra permanece intocada, servindo aos interesses das oligarquias locais e do imperialismo.
Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), divulgados em 2025, revelam que o Brasil registrou 2.185 conflitos no campo em 2024, o segundo maior número desde 1985. A marca histórica de 50 mil conflitos agrários acumulados em 45 anos é a prova material de que a luta pela terra é a contradição principal do país. O governo oportunista de Luiz Inácio, apesar da propaganda mentirosa de "proteção indígena", mantém a mesma política de seus antecessores, investindo mais de um trilhão no Plano Safra para o latifúndio semifeudal agroexportador.
PIB:Leste
Áreas Protegidas Relacionadas
- TI Águas Belas
- TI Comexatiba (Cahy-Pequi)
As notícias publicadas neste site são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.